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HomeNossa história 6 - Os portões do paraíso
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19 de outubro de 1512 foi um dia memorável em Wittenberg. Os sinos tangiam alegremente e os professores e alunos da universidade marchavam através das ruas em direção à igreja do Castelo.

Durante a cerimônia na igreja, todos os olhos estavam postos num monge pálido e magro. Depois de ler alguns versículos da Bíblia, o Dr. Carlsadt colocou um capelo de lã sobre a cabeça do monge e um anel de prata em seu dedo. Martinho Lutero era agora Doutor em Teologia.

Poucos dias depois, assumiu o lugar de professor da Bíblia na Universidade de Wittenberg. Nesta função permaneceu pelos restantes 34 anos de sua vida.

Ser professor não fazia parte dos planos originais de Lutero. Chegando em Erfurt, após sua visita a Roma, Staupitz ordenou que ele se transferisse para Wittenberg. Também ali em Wittenberg Lutero passou a viver no mosteiro agostiniano, como já o fizera em Erfurt.

Logo depois disso, Staupitz pediu a Lutero que se tornasse pregador e estudasse para o grau de Doutor em Teologia. Lutero objetivou imediatamente: "Tanto trabalho haveria de matar-me". E Staupitz replicou: "Deus tem muito trabalho para ser feito. Mesmo que você morra, pode ajudá-lo no céu".

Staupitz estava à procura de professores para a Universidade de Wittenberg. Ele sabia que Lutero poderia fazer um bom trabalho. Também sabia que Lutero estava às voltas com grandes lutas interiores. Quem sabe se ele gastasse mais tempo ajudando outras pessoas, poderia encontrar alívio. Talvez pudesse encontrar paz no estudo da Bíblia, pois dela se ocuparia constantemente em seu novo trabalho. Em Wittenberg, os professores tinham Lutero em alto conceito. Um professor mais velho disse dele: "Este monge lançará as bases de uma nova religião e reformará a igreja romana inteira. Por quê? Por que ele se apega às palavras de Cristo, que nenhum saber humano pode subverter".

O tempo passou rápido para Lutero. A pregação aos monges, a instrução aos noviços no mosteiro e o estudo da Bíblia o mantinham muitíssimo ocupado. Sendo Lutero agora doutor e professor, Staupitz transferiu para ele sua própria função de preletor de Bíblia, de modo que Lutero pôde assumi-lo como titular.

Em seus primeiros anos como professor, o Dr. Lutero ministrou lições no Gênesis, nos Salmos, em Romanos. Gálatas e Hebreus. Ele passava muitas obras estudando as Escrituras a fim de preparar-se para as suas preleções. Muitas noites, quando tudo mais era escuridão no mosteiro, uma luz ainda brilhava no gabinete de Lutero, que se localizava no alto da torre.

Numa dessas noites, em 1514, fez uma grande descoberta. Estava trabalhando em suas anotações do livro dos Salmos. O salmista tinha profetizado as palavras que Jesus proferiu sobre a cruz: Deus meu, Deus meu, por que me abandonaste?"

Lutero estava intrigado. Por que haveria o santo Filho de Deus sentir-se abandonado pelo Pai? É verdade, Lutero tinha se sentido assim muitas vezes, mas ele sabia que era pecador e Jesus era puro e sem pecado. A única resposta é que Cristo tomou sobre si mesmo os nossos pecados. Certamente o Deus que fez isso por nós é um Deus misericordioso.

No entanto, Deus não é apenas misericordioso; ele é também santo e justo. Quantas vezes já havia se deparado com as palavras "justiça de Deus"! Para ele, isso significava que Deus demonstra a sua retidão (justiça) castigando os pecadores. Por conseguinte, tais palavras eram para ele motivo de temor.

Considerando que o apóstolo Paulo mencionava freqüentemente a justiça de Deus, Lutero voltou-se para as suas cartas na tentativa de entender melhor esta expressão. Em Romanos 1.17 ele leu: "Visto que a justiça de Deus se revela no evangelho, de fé em fé, como está escrito: O justo viverá por fé".

Para Lutero não era nada fácil esquecer o que lhe tinham inculcado durante a vida. Finalmente, porém, pôde perceber o real significado da expressão "justiça de Deus": não significa a bondade que o próprio Deus tem, mas sim, a bondade que ele nos outorga. Essa justiça não é recompensa por qualquer boa obra que a pessoa possa ter praticado. É um presente gratuito dado a todo aquele que crê que Jesus sofreu e morreu pelos seus pecados, em seu lugar.

Lutero ficou extremamente emocionado com essa descoberta. "Senti-me exatamente como se tivesse nascido de novo" declarou ele. "Antes disso, eu odiava as palavras ‘justiça de Deus’. Agora eu as amava. Estas palavras do apóstolo Paulo abriram para mim os portões do paraíso!"

Pela primeira vez em sua vida Lutero pôde ter certeza de que seus pecados estavam perdoados. Cristo não era mais o Juiz irado. Para Lutero, ele era agora o Salvador gracioso e bondoso que tinha dito: "Vinde a mim todos os que estais cansados e sobrecarregados, e eu vos aliviarei" (Mt 11.28).

Martinho Lutero nunca mais haveria de apertar-se desta doutrina da justificação pela fé. "Sola fide" – "somente a fé" tornou-se o lema de Lutero. Até hoje, este é o ponto central da doutrina luterana.

 

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